20 de janeiro de 2010

Auto-retrato

Onde estás?
Que ainda há pouco te via...
Um sonho, só um sonho daqueles que acabam rápido.
Ninguém, ninguém a ver-me.
Posso disfarçar, olhar o tecto, voltar a apagar a memória.
Mas o desconforto...
Não te posso largar a mão – sei que não existes.

Que palavras vês? O que diz a voz que ouves?
Um rolo fotográfico estragado,
Uma praça cheia de mulheres incontinentes,
Um caixote do lixo preto cheio de sem abrigos barbudos,
Um hospital em saldos,
Um tapete sagrado a rezar sozinho,
E eu em tudo isto,
Eu mulher, eu velho, eu sem vida.

Por favor, diz qualquer coisa.
Se não quiseres falar, faz só um sinal.
E eu sentado num café com um amigo,
A contar os mil amores inexistentes,
Que importa?
A fugir da sirene da polícia,
A esconder a nódoa negra no braço,
Quem seria?

Agora sou eu quem estou irritado.
(Dorme)
Não percebes o que se passou, pois não?
E um silêncio tão duro, um silêncio que parece ficar preso,
Ao momeno preciso em que o carro atropela a criança.
(Silêncio)
E eu sentado no cinema,
A ver a pálpera do olho esquerdo a ser cortada,
A gengiva a ser cerrada – com um serrote quase gasto
(Duas intelectuais conversam sobre os movimentos estéticos do cinema actual)
Um grito, por fim
(Quero é que essas intelectuais vão levar no cu)

Um choro. Baixinho.
Que importa?
O maço de cigarros no bolso.
O cão, tão longe que já quase nem o vejo,
O vento que gela as árvores,
A música antiga, um sorriso para ninguém
E mais um amigo esquecido,
Que importa?
Tanto como a morte.